“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.
2.3 Formatos clássicos

Por formatos clássicos entende-se aqueles que aparecem, com mais ou menos regularidade, nas obras publicadas, sobretudo nos Estados Unidos, e também os reconhecidos pela indústria norte-americana e pela (única) empresa de audiências, a Arbitron. “La mayor parte de la información estadística se refiere a los Estados Unidos, donde la radio especializada lleva muchos años funcionando; la diferencia de los modelos radiodifusores americanos y europeos hace que las magnitudes entre ambos no sean comparables; por otro lado, el fenómeno de la especialización en el viejo continente no ha adquirido el mismo nivel de desarrollo”, diz Josep Martí (Martí: 1990: 122).

Claro que como antes de referiu, formato rima com instabilidade no sentido em que a elevada concorrência e o dinamismo comercial fazem com que, ao menor sinal de recuo na preferência dos ouvintes, o formato seja alterado e novo utilizado como instrumento de marketing.

Por outro lado – e mesmo evitando grandes desenvolvimentos – há diversos estudos comparativos (Martí, 1990: 122) que mostram que nem nas denominações existe concordância. Ainda assim, há alguns formatos que vão conseguindo manter uma estrutura mais ou menos permanente, mesmo que com inúmeras variações/derivações.

A divisão, neste âmbito, far-se-á de acordo com os dois elementos-base que marcam os conteúdos radiofónicos: a palavra e a música. Far-se-á também referência a formatos híbridos, aqueles que não são nem puramente musicais nem informativos (muito embora muitos formatos misturem palavra e música, haverá na maior parte dos casos um elemento dominante, que ditará a classificação).

Nota final: embora as rádios nos EUA não tenham de registar administrativamente o formato escolhido/praticado (ao contrário do que acontece na Grã-Bretanha), têm de anunciar trimestralmente a sua adesão a uma lista de formatos divulgada pela Arbitron, o que confere alguma unidade dentro da grande heterogeneidade e instabilidade existentes.

Para elaborar a lista de formatos que se segue escolhi aqueles que reúnem: maior implantação (medida pelo número de rádios associadas), maior notoriedade (medida pela audiência) e capacidade de gerar novos subformatos.


2.3.1 Rádios de palavra

Há, globalmente, mais rádios de música do que de palavra, mas esta é mais determinante do que aquela, na medida em que existem rádios sem música, mas não sem palavra, ainda que mínima.

A rádio de palavra não é obviamente toda igual, como se verá mais à frente, sendo possível destacar três grandes correntes. Como denominador comum, os custos. Embora, estes variem em função das opções, uma rádio custa tanto mais dinheiro quanto mais gente nela opera (ou, na ordem inversa, quanto menos decisivos são os computadores no produto final).

Nos Estados Unidos, os formatos “News/Talk/Sports” lideram as audiências medidas pela Arbitron, com destaque para o formato “News/Talk”.


2.3.1.1 Rádios informativas

A rádio informativa impõe basicamente três formatos:

- “All news”: apenas notícias, tratadas com recurso a diferentes géneros, pelo menos de meia em meia hora, não apenas no horário “drive in/drive out”. Às notícias junta-se muita informação de trânsito e meteorologia, num produto global que visa um público adulto, essencialmente masculino. Algumas rádios que, sobretudo à noite, apresentam música, sem abdicarem da informação regular, podem incluir-se neste formato; França experimentou com grande sucesso um formato “all news” na France Info;

- “All sports”: apenas desporto, seja no género noticioso ou de conversa, com destaque para as transmissões desportivas em directo de várias modalidades, mais usuais à noite e ao fim de semana;

- “News and talk”: é num formato híbrido de palavra, que mistura espaços noticiosos, principalmente nas horas de ponta, com alguns espaços de conversa (“call in”), nas restantes horas do dia; uma variação deste formato é o “Farm”, dirigido aos agricultores norte-americanos;


2.3.1.2 Rádio religiosa A rádio religiosa é uma realidade muito forte nos Estados Unidos, mas expandiu-se genericamente para todo o continente americano e, menos, para a Europa.

- “Contemporary Christian”: mistura orações gravadas ou em directo de pastores carismáticos, que podem também assinar «talkshows«, com música de inspiração cristã, nomeadamente rock ou pop; também existem designações semelhantes como “Contemporary Inspirational” ou mesmo “Urban Gospel” ou “Black Gospel” (neste caso, são rádios essencialmente musicais, do universo da música gospel, sobretudo evangélica, dirigidas a comunidades negras); como explica Josep Martí, “en general hay dos tipos de radio religiosa: unas programan música para llenar los espacios entre programas, mientras que otras evitan la música para dedicarse, por entero, a la religión” (Martí, 1990: 134).


2.3.1.3 Rádio de conversa

A rádio de conversa é um fenómeno tipicamente norte-americano, aliás retratado em diversos filmes. Os “hosts” de cada espaço são em muitos casos vedetas políticas, distinguindo-se pelo carácter polémico das suas intervenções (conservadoras ou liberais) e por se dirigirem a um público adulto.

- “All talk” ou “Talk”: vários animadores/realizadores (os “hosts”) discutem temas de actualidade ou tópicos especializados (saúde, sexo, finanças são temas correntes), muitas vezes no contexto de ideologias marcadas (as audiências mostram que a conversa conservadora, com destaque para Rush Limbaugh, tem mais audiência do que a liberal). Podem ter entrevistados e/ou chamadas do público; Na Europa este formato pode assumir a designação de “Político”;

- “Talk’n’rock”: formatos que misturam espaços de conversa (com ou sem ouvintes) com música;

- “Personality”: os espaços têm o nome dos seus responsáveis (“monikers”). Mais do que simples “hosts”, estas personalidades animam e entretêm o público com humor ou comentários corrosivos (daí o nome “jocks”); quando assumem uma vertente muito polémica, podem ser designados por “Hot talk”


2.3.2 A música

Há milhares de estações de música nos Estados Unidos, rádios em que a música é o único conteúdo ou em que domina sobre todos os outros.

As razões para esta proliferação da música no espectro radiofónico são de carácter:

- ontológico (a música funciona bem como meio secundário, como contexto de outra actividade);

- histórico (foi a resposta à televisão, que só reagiu quando o mercado dos videoclips se afirmou, 20 anos depois);

- económico (a música é barata, porque, na maior parte das vezes, oferecida, e existe em grande quantidade);

- e comercial – aqui justifica-se uma especial referência à indústria discográfica.

2.3.2.1 A indústria discográfica

“La terrorifica variedad de música que los americanos tienen a su disposición es debida, sin duda alguna, a la competitividad de la industria de producción musical, estimulada de alguna manera por las demandas de radio que piden algo diferente com lo que competir en un mercado tan altamente diversificado” (Blume, 1978: 171) (ACRESCENTAR TEXTOS DA RQT,nomeadamente sobre as tabelas de vendas)

2.3.2.2 Rádios de play list

Quase todas as rádios musicais têm uma play list, de actualização regular, mas de características fechadas e, na maior parte dos casos, reduzidas. É a play list que fornece identidade ao formato musical, a ponto de se poder confundir a play list com a própria rádio. Da mesma forma, o cuidado posto na sua elaboração pode justificar a aquisição de software especializado na gestão musical (por exemplo, o “Selector”), a realização de estudos de opinião, a contratação de consultores externos ou, até, o franchising de um formato registado, que pode trazer todo esse trabalho de preparação já pronto e testado.

A indústria radiofónica norte-americana segue, por vezes, uma determinada terminologia quanto à idade da música, que convém, neste contexto, ter presente, porque ela vai influenciar as denominações seguintes dos formatos: “hits” são os sucessos do momento (que, em certos casos, podem prolongar-se no tempo); “current” refere-se a música lançada no último ano; “contemporary” é a música lançada nos últimos 15/20 anos; “oldies” enquadra a música dos anos 50/70; e “nostalgia” é música anterior à década de 50.

Os principais formatos de play list são:

- “Contemporary Hit Radio” (CHR): segundo alguns teóricos, deveria chamar-se, antes, “Current Hit Radio”, pois refere-se à rádio que passa a música mais recente (do último ano), ou “Top 40”, podendo especializar-se num determinado género musical, dentro da pop; “Dance CHR”, por exemplo, é especializada em música de dança. É claramente um formato para jovens (até aos 30?);

- “Adult Contemporary” (AC): passa música pop e rock (desde que são seja “pesada”, daí a expressão “Light rock”), surgida nos últimos 15/20 anos, destinada a ouvintes generalistas (que não procurem determinado tipo de música ou especificamente os sucessos), acima dos 30 anos. Podem misturar, percentagens mais ou menos equilibradas, música actual e ainda mais antiga. Sendo o formato musical de maior sucesso nos Estados Unidos, existem algumas variações, sendo a “Lite AC” ou “Soft AC” caracterizada por uma música mais suave (próxima da “beautiful music”) e a “Modern AC” por música um pouco mais recente; a revista Billboard tem um top com temas “Adult Contemporary”, considerada a música “mainstream” dos EUA;

- “Hot Adult Contemporary” (HAC) ou “Adult Top 40”: é uma derivação importante do AC, caracterizada por incluir temas recentes da música pop (Madonna, Sheryl Crow ou Coldplay são alguns exemplos); destina-se a um público mais jovem do que o AC; Se avaliarmos a agressividade da música que passa, dir-se-á que o HAC está a meio caminho entre o AC, mais suave, e o CHR, mais enérgico.

- “Adult Album Alternative” (Triple A) – é ainda uma derivação do género “Adult Contemporary”, mas merece uma distinção das restantes variações por apresentar uma play list mais alargada, em estilos e gerações, em que se incluem temas menos conhecidos dos discos (não apenas os singles), de diversos géneros musicais, excepto a música mais pesada ou o “rap”; muitas estações “Triple A” identificam-se como “World Class Rock”, com música das duas últimas décadas;

- “Gold”: esta designação abrange as rádios que passam música mais antiga, seja no formato “Classic Rock”/“Classic Hits”(sucessos da música rock dos anos 70 e 80 dirigidos principalmente a adultos, com raros sucessos da actualidade), seja no formato “Oldies” (músicas/sucessos dos anos 50 e 60); há ainda formatos com música mais antiga, como o “Nostalgia” (a partir dos anos 40, aqui incluindo as “Big Bands”);

- “Album Oriented Rock” (AOR): por vezes é confundido com o “Classic Rock”, uma vez que ambos se dedicam ao rock mais antigo. Mas o AOR não está dependente das tabelas de vendas e dos singles que fizeram sucesso. Por isso, tem uma play list muito mais variada, com temas menos conhecidos dos músicos, dirigida aos ouvintes masculinos, entre os 18 e os 34 anos (é uma das mais históricas e resistentes; foi das primeiras a passar blocos de música sem interrupção do animador ou publicitária);

- “Country”: música “country”, seja na versão moderna (“hit”) seja na de “oldies”; éo formato, actualmente com mais estações registadas;

- “Urban”: caracteriza-se por passar música que pode ser descrita como de origem negra (rap, hip-hop, r&b ou soul). Também aqui existem algumas variações: “Urban Contemporary” ou “Urban AC” remete mais para a música rythm and blues ou soul, misturando alguns sucessos com música mais antiga e menos rap;

- “Ethnic”: são rádios especializadas em música de um determinado país ou região dirigidas a ouvintes dessas origens e faladas nessa língua; existem nos EUA muitas rádios hispânicas, que podem não ser apenas de música (“Latin”), mas também de conversa e que replicam os principais formatos; “Hurban” é o formato “Urban” hispânico, misturando Hip-Hop com reggaeton; já na Grã-Bretanha as rádios asiáticas são mais frequentes;

(ficam de fora, por falta de espaço, dificuldades na sua completa percepção ou menor representatividade, designações como “Active Rock”, “Modern Rock”, “Classic” ou “Middle-of-the-road”/MOR)


2.3.3 Formatos mistos

A definição de formatos mistos parece fácil: juntam palavra e música. Mas exceptuando as rádios que só têm palavra e as que só têm (quase) música, o que sobra não é tudo híbrido – para o ser é preciso que estes dois elementos tenham um peso equilibrado na programação. Dois dos exemplos clássicos de mistura entre música, notícias e informação, muito populares há décadas, “Full Service” e “Middle-of-the-Road” estão hoje quase extintos.

Antes ainda da descrição breve de alguns exemplos, serão os formatos mistos o mesmo que rádio generalista, uma vez que esta questão prendeu a atenção em capítulo anterior? Entendendo-se formato como uma definição coerente de programação tendo em vista um determinado público específico (e não todo o possível no universo de emissão), os exemplos que se seguem mostram que há rádios mistas sem serem generalistas (nota de rodapé no original:

- “Children”: o melhor exemplo de formatos mistos. Tem um público-alvo (5-15 anos) que pelas suas características próprias não quer apenas música, mas também jogos, histórias ou até uma parte educacional (a Radio Disney é o melhor exemplo disso); há também algumas rádios que se designam por “youth programming”, destinadas a crianças mais velhas (a partir dos 10);

(Poderia haver a tentação de incluir neste sector dos formatos mistos as rádios étnicas que emitem em certas regiões dos Estados Unidos, dirigindo-se a comunidades imigrantes minoritárias, sobretudo hispânicas. Por estarem isoladas na oferta radiofónica local, têm de programar música e informação para não excluirem ninguém. Mas da mesma forma que se referiu o caso português, em que subsistem algumas rádios locais que tentam não excluir nenhum dos seus ouvintes potenciais, e foram inseridas no modelo generalista ou convencional, também estas rádios étnicas podem ser consideradas as últimas “full service” dos EUA. O critério é o mesmo: a rádio generalista pretende chegar a todo o público possível e disponível, não excluindo nenhuma faixa etária relevante à partida, utilizando necessariamente diversos géneros e ofertas; a rádio especializada abdica desse público possível e disponível e escolhe um em concreto);


(fontes: New York Radio Guide; Wikipedia; Tv and Radio World; www.radiolocator.com ; Michigan’s Radio & TV Broadcast Guide);