“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

Corrupção (”payola”)

August 30, 2005

(penso que faz sentido, na alínea dedicada ao papel da música na rádio, incluir algumas notas sobre o papel da indústria discográfica relativamente à rádio).

Um texto de Corey Deitz aborda a questão, revelada em finais de Julho, dos pagamentos a animadores de rádios dos Estados Unidos para garantir a passagem de determinadas músicas, aquilo a que chamam nos EUA “payola” (”The word comes from a merging of the words “Pay” and “Victrola”. Victrola was a brand name gramophone product of the Victor Talking Machine Company. A gramophone was an early record player (…) As radio stations began to use Victrolas to provide music for transmission, record companies soon realized that getting their songs played on the radio was very helpful in selling sheet music and more recordings”).

O autor diz que este costume iniciou-se na década de 20 do século passado e já teve alguns processos em tribunal. Uma curiosidade: “When a broadcast licensee has received or been promised payment for the airing of program material, then, at the time of the airing, the station must disclose that fact and identify who paid for or promised to pay for the material. ” Ou seja, o animador da rádio ou a rádio, genericamente, devem dizer que receberam dinheiro (ou algum outro incentivo) para passar aquela música…

A conclusão de Corey Deitz:
“Pay-for-Play”, “Payola”, “Bribery”, or whatever you want to call it, has had a relationship with Radio practically since Radio had a relationship with listeners. The latest disclosures from Attorney General Spitzer’s office can only reinforce the disenchantment of some radio listeners who feel many radio stations provide little variety, music repetition, and unresponsive attitudes.
Is it any wonder the technologies of mp3 players, Podcasting, Satellite Radio, Streaming Internet Radio, radio on cell phones have been embraced so quickly by the public?
Music companies will probably always try to influence radio stations to play songs. But, for the first time since Radio first captured the imagination of millions, the masses now have their own “Pay-for-Play” technology: an iPod, CD burners, and downloads
. ”

Heranças da televisão

Se a televisão processou uma série de transformações na rádio, também não poderia deixar de o fazer ao nível da programação. Um exemplo: diversos modelos/conteúdos que agradaram aos ouvintes da rádio até finais da década de 40 mostram-se hoje desajustados. É o caso do teatro radiofónico (“soap opera” nos Estados Unidos ou “radiodrama”), um género claramente visual, que existia na rádio com sucesso, mas que migrou para a televisão e hoje é uma raridade (BBC?)

História dos modelos

texto apagado em 3/12/05

Um assunto mal estudado

Se a rádio, genericamente, não gerou muita bibliografia científica, muito menos isso aconteceu à parte da programação e aos modelos de produção, sobretudo pelo seu carácter provisório, transitório. “Sistematizar los aspectos conceptuales de los programas, sus regularidades y sus características textuales constituye un ejercicio difícil y arriesgado al que la realidad cotidiana de los medios radiofónicos confiere siempre un aire de provisionalidad”, Martí i Martí, Josep Maria, Modelos de programación radiofónica, Feed-Back Ediciones, 1990, pág 13

A especialização

A rádio que temos hoje caracterizou-se, antes, por se dirigir a um público heterogéneo e indiferenciado. Hoje especializou-se, “más allá de lo logrado por cualquier outro medio de masas. Una especialización que se fundamenta en los contenidos, pêro también en determinadas franjas horarias, o en determinadas coberturas. Con esta estratégia se consigue satisfacer cada vez a grupos más reducidos y por tanto más homogéneos de oyentes”, Martí i Martí, Josep Maria, Modelos de programación radiofónica, Feed-Back Ediciones, 1990, págs. 10-11

Definição do conceito de programação

“ Un complejo fenómeno comunicacional mediante el cual se definen, seleccionan, ordenan y estructuran los programas como unidades básicas de la emisión radiofónica, atendiendo a un conjunto de condicionantes entre los que destacan los factores económicos, los factores de producción, los factores creativos y las audiencias”, Emili Prado apud Martí i Martí, Josep Maria, Modelos de programación radiofónica, Feed-Back Ediciones, 1990, pág 10

A programação

“La programación [es] una herramienta de primera magnitud (…)”, Emili Prado apud Martí i Martí, Josep Maria, Modelos de programación radiofónica, Feed-Back Ediciones, 1990, pág. 9

A origem dos modelos de programação

“En el Estado Español, la política programática de las empresas de radio y televisión fue durante muchos años algo inexistente y por extension las técnicas de programación algo desconocido. Esa carencia fue suplida por la intuición (…). Todo se suplía com una viaje inspirador a EE. UU. o a los paises más desarrollados de Europa, en el mejor de los casos y después a «trasplantar». Y finalmente, lo más parecido a una técnica que se empleaba consistía en la «ley» de la prueba y el error. Asi, un programa podía desaparecer de la parilla por las mismas «razones de peso» que le habían llevado a ella”, Emili Prado apud Martí i Martí, Josep Maria, Modelos de programación radiofónica, Feed-Back Ediciones, 1990, pág 9

Palavras e música (1)

De acordo com Andrew Crisell, na rádio tudo o que existe é audível (“todos os signos são audíveis”, Understanding Radio, Londres, Routledge, 1994 (2ª edição), pág. 42).
Mas tudo é o quê?
Sons e silêncio.
Se tentarmos arrumar o que existe (o que ouvimos) na rádio, o silêncio é fácil de excluir. Existe marginalmente e não é opção de emissão – não há nem rádios nem programas de silêncio (mas pode haver silêncios…).
Restam os sons. Basicamente, divididos em três espécies: palavras, música e sons ambiente (estes também devem ser retirados; pode haver programas de sons ambiente, mas será sempre uma experiência marginal – silêncio e sons ambiente não são inúteis na rádio, mas não são elementos dinamizadores).

Sobram a palavra e a música.
Individualmente ou em conjugação (o mais comum), elas preenchem a rádio que temos. Há rádios só de palavra (em que a música é elemento informativo ou decorativo – as promoções ou cortinas separadoras) como há rádios só de música (em que a palavra é mínima – apesar de estar mais presente do que no caso anterior, o que acaba por demonstrar a sua prevalência global) e outras que cruzam elementos.

Mas como é que a rádio que temos distribui estes dois elementos? Como é que os (re)arranja? Como se equilibram?
É esse o objectivo deste trabalho, tentando perceber – com recurso a alguns teóricos – a qualidade de alguns modelos.

Três horas e 25 minutos?

August 18, 2005

A Marktest, empresa que faz os estudos de audiência de rádio em Portugal, diz que, tendo em atenção os números do segundo trimestre de 2005, “Cada português ouviu, em média, três horas e 25 minutos de rádio, por dia“.

Três horas e 25 minutos (é uma média, claro, mas se há quem ouviu menos há quem tenha ouvido mais…)???

Parece-me de mais, mas não tenho dados para contestar os números.
Três horas e 25 minutos?

E, dando-os como correctos, faz sentido deixar algumas considerações:
- ninguém gasta tanto tempo a ler jornais ou a ver televisão, diariamente!
- que força a rádio ainda tem em Portugal;
- que desperdício a rádio não tirar partido deste trunfo!