“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

Multiplicidade ou homogeneização?

September 25, 2005

Em quase todos os países se assistiu a uma liberalização (privatização do sector rádio), que apareceu associada a uma promessa de diversidade.
Aparentemente, a multiplicidade e, ainda mais, a desmultiplicação de formatos que caracterizam a rádio que temos significam isso mesmo.
Mas essa constatação é só aparente.
Na verdade, vários autores concluíram pela existência de uma homogeneização da oferta, a que não será alheia a tendência para a concentração da propriedade (e o número limitado de frequências, geridas administrativamente pelos estados).
But if the evidence of recent American experience is anything to go by, even a city like New York, which is allowed many more stations than a British city like London, is nonetheless still dominated by a fairly small range of predictable mainstream formats offered by a few large companies.” (Hendy, pág. 31)
A ideia é que não se pode falar verdadeiramente em diversidade. A oferta não se diferencia e há autores, como David Hendy, que falam mesmo num estreitamento do mercado. Para S. J. Douglas não há dúvidas: “There are currently something in the order of fifty officially listed formats, and the hairsplitting between them seems ridiculous to an outsider. What really is the difference between soft rock (’plays older, softer rock’) and soft adult contemporary (’recurrents mixed with some current music’)? Classic hits features ’70s and 80s hits from rock-based artists,’ while classic rock features ‘older rock cuts.’ Country, whose AM audience. . . is primarily fifty-five and over, has gotten carved up into hot country or young country on the FM dial to attract youngers listeners” (Douglas, S. J. 1999: Listening In: Radio and the American Imagination, from Amos Andy and Edward R. Murrow to Wolfman Jack and Howard Stern. New York and Toronto: Random House. pág 348, apud David Hendy, pág 26).
Espremendo tudo o que existe, fica-se com pouco. Muitos nomes, mas os mesmos formatos. É o narrowcasting.
Mas este narrowcasting não se revela apenas na repetição dos formatos. Também o conteúdo da própria rádio não permite surpresas: “variety of programming within each station has been eroded in recent years” (Hendy, 27).
Ou: “a radio station refines the format of its programming in order to attract a very clear, tightly focussed group of listeners to be ‘delivered’ to an equally tightly focussed group of advertisers. The fact that a huge mass audience is not achieved is counterbalanced by securing the right kind of audience - the right ‘niche’ - for a particular set of advertisers”. (Hendy; 32).
Uma explicação para este fenómeno tem a ver com os baixos custos: determinada rádio assina (compra) um determinado modelo já várias vezes testado, que pode receber via satélite. Além de dar pouco trabalho e exigir pouca criatividade, sai muito barato (até pode limitar-se a reproduzir o que recebe, sem intervenção local). Outra razão relaciona-se com as audiências e o mercado publicitário: “Formats are not sought by radio stations to provide a diversity for its own sake. . . . Nor are they provided to satisfy listeners’ demands. The purpose of. . . formats is to enable radio stations to deliver to advertisers a measured and defined group of consumers, known as a segment“. (Fornatale, P. and Mills, J. E. 1980: Radio in the Television Age. Woodstock, NY: Overlook Press. 1980: pág. 61 apud Hendy, pág 35).

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