“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

A origem dos formatos numa lógica rigída de programação (a hora-relógio)

October 1, 2005

Qualquer rádio, tenha um carácter mais genérico ou especializado, tem de ter uma programação – isto é um conjunto de conteúdos, organizados de uma forma periódica e regular, para que qualquer potencial ouvinte os reconheça.
A escolha dessa programação há-de obedecer a uma determinada lógica – conteúdos que previsivelmente interessem a um grupo predeterminado de ouvintes (seja pela sua localização geográfica, seja pela sua condição sócio-económica, idade ou crenças religiosas, por exemplo) ou de anunciantes (numa lógica puramente económica). Exclui-se aqui as programações pensadas em função de quem decide, pelo seu carácter anedótico e marginal.
Seleccionados os conteúdos que interessam e excluídos os que não se enquadram (ou, enquadrando-se, são demasiado ambiciosos), é preciso dispô-los ao longo dos dias e das horas – a chamada grelha de programas.
Esses conteúdos serão basicamente música (de diferentes géneros) ou palavra (notícias, desporto ou conversa).

É este o princípio da programação, comum a todas as rádios.
A diferença começa a partir daí: uma coisa é a rádio procurar fazer por si própria, pensando numa grelha improvisada (com base em expectativas, experiências anteriores e alguns modelos muito copiados), outra é a rádio desenhar por si própria ou então importar (copiar?) um formato já experimentado (e, até, registado), que lhe garanta, à partida, algum sucesso.

No primeiro caso estaremos certamente perante rádios locais, de ambição e meios muito reduzidos, recorrendo provavelmente a conteúdos clássicos, como os noticiários locais, o relato do clube de futebol local ou os “discos pedidos” com a participação dos ouvintes. Aliás, numa lógica de emissão local, com um público-alvo muito definido mas sobretudo reduzido (a rádio que emite para um concelho com alguns milhares de habitantes), não faz sentido segmentar, escolher uma parte dessa população – o objectivo deve ser atingir todos (até porque a concorrência directa ou não existe ou é mínima).
A rádio que emite para um público mais vasto, e que portanto pode/deve ter mais ambição nos meios usados e nas receitas a gerar, quer/precisa de um formato, de uma lógica subjacente às 24 horas do dia que estratifique uma parte do total de ouvintes potenciais (ver a lógica das rádios generalistas versus rádios especializadas). É que o formato funciona duplamente, criando um grupo bem definido de consumidores para o publicitário poder anunciar ao mesmo tempo que institucionaliza um produto mais menos organizado dentro de paradigmas definidos – uma rádio que só passa determinado tipo de música, que só tem notícias de desporto ou em que os ouvintes podem telefonar a propósito de qualquer coisa.

O formato depois de escolhido e transposto (com ou sem adaptações), em função daquilo que aos programadores da rádio parece ser um conteúdo que agradará ao conjunto de ouvintes seleccionados (o público-alvo), tem de ser reconhecido por esse mesmo público. Isso passará por acções de marketing exteriores (publicidade, por exemplo) e interiores (promoções, spots, etc.) mas sobretudo pela necessidade desse conteúdo ter características de regularidade, de periodicidade, para que o ouvinte ganhe hábitos de escuta e procure esse conteúdo.

Uma das formas de cumprir esse objectivo é, de acordo com David Hendy, a criação de horas-relógio. “The most pervasive means of establishing this temporal structure is by building a running order based on a ‘clock format” (pág. 95).
Estas horas-relógio tanto podem ter um esquema de muitos conteúdos em sequência (notícias, música, publicidade, tempo, música, notícias, trânsito, música, desporto, etc.), como demonstra a figura (HENDY, 96) como, até dependendo da hora de emissão, estar baseada na música – mas, como acontece na RFM, o ouvinte sabe que depois da publicidade da meia hora há sete músicas seguidas e que depois entra publicidade, mais um música e as notícias da hora seguinte.
Esta lógica de hora-relógio, com mais ou menos intensidade, é importante porque cria habituação. Se é verdade que retira espontaneidade e dificilmente surpreende o ouvinte, resolve uma das necessidades da rádio concorrencial: permitir ao ouvinte conhecer a regularidade dos conteúdos, que são pensados para corresponderem às suas próprias necessidades. Hendy distingue três grandes méritos para esta lógica:
First, given that each programme will have a slightly different way of distributing its individual items around the clock, listeners come to know both the particular placing of individual pro- gramme elements and the unfolding direction of a programme. Secondly, producers have solved the ‘problem’ of reproduction: considerable thought, research and experimentation may go into creating the clock-format’s first ever ‘cycle’ of production, but once it has been efforfully worked out in detail for one hour, it can be effortlessly repeated in the very next hour, and the many more hours to come after that. Thirdly, it allows for the demands of broadcasting to achieve constant ‘newness’ in the context of an overarching familiarity.” (pág. 97)

Uma vez fixados os conteúdos em cada hora da grelha de programação, sobretudo se esta obedece a uma lógica de formato, é de esperar o seu cumprimento rigoroso. Na rádio musical, as play lists servem para isso. Mas não só. O cumprimento rigoroso da lógica de programação passa também pelo recurso ao computador que pode incluir alinhamentos de “jingles”, voz do animador e as sequências de publicidade. Por isso é que, por vezes, se fala numa rádio demasiado formatada. Demasiado impessoal.
(…) the precise role of automation is to police the ‘boundaries’ a station establishes more effectively than is humanly possible - indeed to make the transgression of the format, once agreed, a near impossibility.To this extent, automation is a significant trend in ensuring that station formats, once regarded as nothing more than vague statements of intention, are now rigidly enforced aspects of the whole production process.” (Hendy, pág.103)

O que fazer para reformatar

Every format follows a complex set of rules for programming, including the style and range of music selections, size and origin of playlist, quotas for musical repetition, relative numbers of current and past hits and their usual sequence, conventional relationships between music and speech and so forth. A major change in any of these is inconceivable without a subsequent change in all of them and in the relationships amongst them. For instance, a switch from Middle of the Road (MOR) to contemporary hit radio (CHR) would demand a smaller playlist with higher weekly rotation and faster turnover of hits, and above all, a successful transition to new sources of advertising revenue for the less affluent but presumably larger market”. (Berland, J. 1993: Radio Space and Industrial Time: The Case of Music Formats. In S. Frith et at (eds), Rock and Popular Music: Politics, Policies, Institutions. London: Routledge, pág 104-18 apud HENDY, David, pág. 99).

As dificuldades do programador

“The radio gatekeeper may appear to mediate between (record) manufacturer and consumer, in the same way that record reviewers in newspapers do, but his responsibilities ultimately lie elsewhere. Radio gatekeepers have a responsibility to the public only in the vaguest sense: their primary concern is to serve the particular publics that the stations’ managers or owners have delineated. (Barnard, S. 1989: On the Radio: Music Radio in Britain. Milton Keynes: Open University Press. Pág. 114 apud HENDY, pág. 99)

Este trabalho de “gatekeeper” que o programador da play list tem de desempenhar não se limita a escolher as músicas pelo género ou pelos autores, mas a passar o crivo por cada música, individualmente. “The programmer of a ‘Soft Adult Contemporary’ formatted station, for example will automatically exclude from its playlist any record with a ‘rougher’ guitar-led sound, and will look for tracks with a softer, more smoothly produced, melodic feel” (Hendy, 99).

Depois de elaborada a playlist, é preciso cumpri-la rigorosamente. Para o ajudar a cumprir a sua função de “gatekeeper”, recorre a programas informáticos que não só seleccionam s músicas como definem alinhamentos e relacionamentos (uma por casar com a outra) e impõem regras que evitam certas repetições. Um dos programas informáticos mais usados é o “Selector”.

Não admira que a função de programador da playlist encerre, além da responsabilidade, alguns ódios – por parte dos animadores. Por isso, esse programador raramente é um autor de programas de rádio, mantendo-se equidistante dos vários animadores e da própria antena