“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

Palavras e música (3)

October 5, 2005

Dos dois conteúdos essenciais da rádio, música e palavra, esta desempenha uma função superior.
Para David Hendy (pág. 155) não há dúvida sobre a supremacia da palavra sobre música
Even where music and the other sounds of the real world are in play, some explanation of those sounds is needed - and it is invariably provided by speech. Talk is therefore almost always described as the ‘primary code’ of radio, which contextualizes all other sounds.”
No entanto, não será correcto reduzir a música a um elemento secundário no processo radiofónico.
É inquestionável que a rádio e a música mantêm uma relação fortíssima há dezenas de anos, desde, mesmo, os primórdios da própria rádio.
Vários factores contribuíram e continuam a contribuir para isso, nomeadamente o facto de ser possível, com determinada selecção musical, criar uma determinada audiência e, assim, chegar aos anunciantes “certos”. “Music has, for many of us, become a way of defining one’s identity, and from that, establishing communities of shared interests and even values. Given this, a radio station’s decision to choose to play a particular genre of music means it is also choosing a particular audience” (Hendy, 169).
Daí esta relação forte. Que não depende apenas da institucionalização da lógica comercial na rádio, suportada por audiências e publicidade. Rádio e música são como que dois elementos complementares. “Often at a concert we have to look away from the performers or, better still, close our eyes to really hear the music. One of the advantages of radio is that it closes our eyes for us, focusing our attention on the product rather than the process of musical performance. Radio renders music more important than the performers and, consequently enhances its elemental power”. (Shingler, M. and Wieringa, C. 1998: On Air: Methods and Meanings in Radio. London: Arnold, pág. 61 apud Hendy 169).
E ao fecharmos os olhos, estamos a valorizar aquele que tem sido o elemento mais determinante da rádio nos últimos 50 anos: o seu elemento não visual, a sua afirmação como meio secundário, a sua capacidade de permitir acumular outras actividades (ou seja, ouvimos mas não estamos a escutar).

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