“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

Dificuldade de perceber os formatos novos

October 15, 2005

Os formatos actuais são os mesmos de há 20 anos mas com outros nomes? Provavelmente sim, a partir do momento em que os elementos constitutivos permanecem (música e palavra). Além disso, há que ter em conta que denominações presentes podem ser meras actualizações de programações mais antigas, resultado da evolução semântica e geracional, como alerta Marti i Marti: “hay que asociar pues al género programático radiofónico el concepto de caducidad en lo que respecta a algunos de sus rasgos distintivos; de esta manera nos será fácil explicar las «degeneraciones» que se producen en algunos de los programas paradigmáticos que se acostumbran a tomar como ejemplo de géneros específicos” (29).

O que será a rádio do futuro

“La radio no debe amoldarse solamente a las leyes de oferta y demanda que marca la competitividad como resultado de la multiplicación de la oferta audiovisual, sino que fundamentalmente debe hacerlo a las exigencias de avance del propio medio y a los retos quel supone la elevada tecnificación de los procesos productivos” (Marti i Marti, 25)

Como se organiza

É possível encontrar várias formas de organizar o sector rádio nacional ou internacionalmente, em função de critérios diversos, mas estando o objecto deste trabalho centrado na programação, importa focalizar os seus dois elementos-chave: palavra e música, mas cada vez mais agrupados em formas múltiplas, com mais ou menos peso de cada um deles, em função dos públicos que se pretendem atingir ou do serviço (público?) que se quer prestar.
Cada rádio sente necessidade, no confronto concorrencial, de se mostrar diferente, tendo em vista não apenas um determinado público mas também os anunciantes, na cidade, região ou país para onde emite.
A questão, nesta altura, é como organizar uma realidade que, provavelmente, não tem organização possível, se se quiser respeitar as minúsculas idiossincrasias de cada projecto. Marti i Marti lembra “la dificultad de establecer reglas y clasificaciones universales sobre los géneros de programas, que sean válidos para todos los modelos radiodifusores” (pág. 30). Muito mais, portanto, se se compararem continentes (europeu e norte-americano). É, assim, normal não existir uma tipologia universalmente aceite.
Cada autor vai propondo uma organização mais ou menos lógica dos conteúdos que caracterizam a rádio em cada país, mas essa organização é contestada de imediato por outro autor (é o caso de Marti i Marti face a Muñoz Gil, páginas 33 a 37).
Além do mais, quanto mais a caracterização se centra nas características de cada país, mais se divorcia da realidade vizinha. É o caso da proposta de Marti i Marti de “tipologia funcional de los géneros dominantes de la radio espanhola” (pág. 40), em que se distinguem “cinco grandes famílias: informativos, musicales, dramáticos, entretenimento [e] mixtos” (pág. 42). Ora, como se verá adiante, este retrato nada tem a ver com a realidade portuguesa, onde basicamente só há um género, o musical, e dois residuais, informativo e misto. Ou seja, nada de géneros dramáticos ou de entretenimento.

A origem da programação (e dos formatos)

A rádio no pós-televisão faz as suas novas opções programáticas em função de diversos factores. Um deles é a óbvia quebra das receitas publicitárias (um exemplo: o último episódio da última radionovela nos EUA, até então um género localmente muito popular, vai para o ar em 1960) (BLUME 1983:10/M&M 24)
Como lembra Martí i Martí, perante esta conjuntura e a necessidade de sobrevivência, “no se creaban nuevos géneros programáticos; se buscaba una salida pragmática y económicamente asumible, apoyándose el discurso radiofónico en otra industria cultural que vivía una gran fase expansiva: la discográfica, al rebufo a su vez de una nueva corriente de la música popular vinculada a la electrónica” (MIM 24).
É neste contexto que surge a rádio (comercial) tal como hoje a conhecemos, marcada por uma “especialización y con la aportación a nivel de género de un programa único, senado y repetitivo, consecuencia de la aplicación de diferentes fórmulas combinatorias de material: música, noticias, concursos, publicidad, etc” (MiM 24).

O ataque da televisão

A rádio que resulta da explosão da televisão, a partir da década de 60, é marcada por diversos desenvolvimentos tecnológicos (o transístor, que permite a miniaturização, ou a banalização do FM), pelo crescimento do próprio meio (nascem mais rádios, sejam privadas, no caso dos EUA, estejam ainda sob controlo dos estados, na Europa) e pela concorrência directa da televisão, que se consolida pelo menos em todo o hemisfério ocidental. A presença da televisão não se limita a ocupar o mesmo público que antes ouvia rádio (além de trazer públicos novos) e o mesmo espaço de atenção. Também vai procurar à rádio os seus principais nomes e ainda a publicidade.
A rádio reage, para não morrer, e numa espécie de movimento conjugado – até porque, como se disse, há cada vez mais rádios – especializa-se, à medida que se vai libertando dos monopólios estatais (em muitos países da Europa isso só acontece nas décadas de 70 ou 80, caso de Portugal, numa altura em que o espectro já oferece alternativas à margem da lei).