“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

Por que é que há tanta música na rádio

November 26, 2005

Porque existe tanta música – entendendo por música aquela que é está associada à indústria discográfica e, portanto, a uma lógica comercial (e não por exemplo a outras funções que a música pode ter num contexto global, como a de separação de conteúdos, efeitos especiais num sonorização ou de identificação da estação).
Há diversas razões que explicam a abundância de música na rádio actual.
Uma remonta à redefinição da rádio como meio secundário: não exigindo uma grande atenção por parte de quem ouve, a música casa bem com a lógica de acumulação. Andrew Crisell fala na “ausência virtual de sentido, ou numa proporção diminuta, na música faz com que seja altamente compatível com a rádio como meio” (pág. 49) ou no facto de ser “puramente sonora” (64), o que lhe dá um forte carácter de background. Sabendo-se que muitos ouvintes, em muitas ocasiões, utilizam a rádio como meio secundário, enquanto têm outros sentidos ocupados com funções primárias (conduzir, por exemplo), podemos ouvir “a música porque ela, se nos permite usar a nossa imaginação, não se está a dirigir em concreto a nada da mesma forma que a voz [speech] o faz e portanto não nos obriga a usá-la: constitui, aliás, um ambiente sonoro perfeito [de background].” Crisell, pág 14.

Mas essa não é a única razão: a rádio que resulta do choque televisivo tem menos meios financeiros e muito mais concorrência (o FM e a abertura política do espectro), pelo que tem de encontrar alternativas de programação mais baratas. A música é barata, a partir do momento em que a indústria discográfica entende essa divulgação como publicidade (o single é a promoção do álbum…) e não só não cobra direitos significativos como até incentiva a divulgação da música gravada – oferecendo os discos. “Uma parceria de fenomenal sucesso (…) que tem sido crucial na formação da cultura popular moderna”, diz Crisell (66).
Além do mais, como lembra o mesmo autor, a curta duração das músicas relaciona-se bem com a necessidade de fazer vários intervalos publicitários, de curta duração (é muito mais difícil cortar um programa gravado ou uma entrevista, de cinco em cinco minutos).

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