“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

A rádio que temos é inimiga da diversidade musical (e cultural)?

April 8, 2006

David Hendy, por exemplo, não tem dúvidas de que sim. Se encontra, por exemplo, no canal 1 da BBC uma excepção à rígida formatação e à elevada segmentação que caracterizam a rádio actualmente, a constatação mais evidente é que a rádio, tal como a conhecemos, é demasiado passiva (uma ideia que Hendy foi buscar a Roland Barthes e aos seus textos sobre o grão* (”Image, Music Text”). Os ouvintes acabam, na maior parte dos casos, por ficar reféns de uma cultura média imposta pela comunicação social, também ela muito condicionada por padrões externos (audiências, facturação, receptividade dos anunciantes). No fundo, e generalizando, ouvimos sempre a mesma música. “It is a commonplace of current radio criticism that music radio output is not only sometimes biased towards the more polished and melodic records of the music industry but also is bland and unchallenging as a whole” (Hendy, 172).
Apesar da segmentação de nichos e da consequente formatação por múltiplos géneros aparentemente indicarem multiplicidade de opções, isso não se verifica na realidade. Assiste-se à imposição de um gosto-médio, que as tabelas de vendas orientam, e que globalmente coincidirá com as músicas mais tocadas (“airplay”).
A disciplina é conseguida à custa da imposição das “play lists” (“A playlist allows station managers to reduce the element of risk entailed in leaving individual DJs and producers to select records, thus ensuring a proper consistency of output”, Hendy 173), da uniformização da animação e, até, de programas de software, como o “Selector” que organizam ou rejeitam determinadas categorias musicais, mais ou menos “emotivas”.
A rádio musical não tem, assim, capacidade ou espaço para favorecer a inovação musical, demasiado refém que está da indústria discográfica. Hendy não tem dúvidas: “Our understanding of radio’s ability - or, as more commonly stated, its inability - to encourage musical innovation, is based largely on the disjunction between the needs of radio and the needs of the music industry. Take the record sales charts. Each week, on average, between one- and two-hundred singles are released in the UK. To reach number one, a single would currently have to sell on average some 125,000 copies in a week. Exposure on radio is a crucial prerequisite of sales success on this scale” (Hendy 225)
Transformando-se num agente de homogeneização cultural, assiste-te à diminuição de estações de verdadeiro serviço público (mesmo que seja esse o seu estatuto político ou administrativo, como acontece com o canal 1 da portuguesa RDP) ou ao fim de experiências não comerciais (ver capítulo 2.6 Rádios sem formato). É o triunfo da globalização dos formatos, sobretudo musicais.
Hendy cita um caso paradigmático: “New York’s WNEW-FM, often described as America’s ‘first free-form progressive rock station’ - and a mirror for the city’s cultural, musical and sexual vitality - captured only 1.4 per cent of the city’s available audience in 1999, a situation which helped propel its owners into abandoning thirty-two years of history and reformatting it as a laddish all-talk station” (236).
Em Portugal dois exemplos são conhecidos: o fim das rádios XFM e Voxx (ambas com emissão simultânea em Lisboa e Porto), por falta de viabilidade financeira e cujas frequências foram alienadas para estações… comerciais - desenvolvimento em 2.6.

O que há para alem da musica; há espaço para mais?

“La formulación musical no es exclusiva; consiguen éxito y se consolidan otro tipo de formatos que no tienen este tipo de contenidos dominantes. Con ello algunas predicciones de los agoreros que proclamaban con la liberalización de las ondas el advenimiento de la radio-tocadiscos, parecen no haberse cumplido. Constatamos que en la mayoría de los países se han puesto en marcha con éxito programaciones todo noticias, radios de servicio y radios temáticas hiperespecializadas, entre las que cabe destacar las denominadas étnicas.”
Transformaciones radiofónicas a medio plazo. En un entorno cambiante y competitivo
Josep M. Martí Martí, Revista Telos, nº 42, junio - agosto 1995

A realidade mostra um panorama diferente: abundam as rádios-giradiscos, em Portugal, mas tambem em Espanha…

Martí i Martí, Josep Maria, Modelos de programación radiofonica, Feed-Back Ediciones, 1990


Cebrián Herreros, Mariano, La radio en la convergencia multimedia, Gedisa, Barcelona, 2001


Hollingsworth, Mike, How to get into Television , Radio and New Media, Continuum, Londres, 2003


A variedade da oferta aumenta a oferta junto dos ouvintes?

De acordo com o relatório 2005 da autoridade britânica Ofcom (“The Communications Market 2005”), há um aumento da capacidade de escolha por parte do ouvinte, embora apenas nas áreas urbanas: “The increase in the number of stations over recent years has allowed for the launch of stations offering more niche formats and for stations which can provide more localised programming to smaller areas than was previously available. As community radio becomes more widespread over the next couple of years, analogue choice in some areas will increase further” (pág. 69)
http://www.ofcom.org.uk/research/cm/cm05/radio.pdf

Conclusões 1

- como se verá no caso português – e não é situação única – não há uma correspondência directa entre o que é apresentado ao público, pelo menos ao nível da denominação, e os nomes clássicos destes formatos (ainda assim, como se tentará demonstrar, não são realidades antagónicas);
- nem nos Estados Unidos estas denominações são pacíficas, com sub-géneros ou variantes que introduzem confusão no próprio mercado radiofónico do país. Por um lado é importante reconhecer que os nomes em causa não são regulamentares (teoricamente cada rádio pode designar-se como quiser) e dependem de estratégias de marketing local e concorrencial, muitas vezes evoluindo em poucas semanas – ainda assim, a Arbitron reconhece-os, regista-os e isso ajuda a alguma institucionalização (sendo que se espera também algum reconhecimento por parte do público);
Se conjugarmos o facto de não haver unanimidade nem solidez na classificação dos formatos, isso não conduz ao esvaziamento do projecto? Creio que não. Por um lado, não haverá uma valorização da questão, limitando-se o trabalho à enunciação das grandes famílias, esquecendo os seus derivados e sub-géneros, sem grande desenvolvimento; por outro lado, e como ficou claro em capítulo anterior, a lógica do formato não se reduz ao nome – no fundo é como se alguém avaliasse a personalidade de outro pelo seu nome.
Há uma lógica de actuação em cada formato, há uma filosofia subjacente e há sobretudo a necessidade de compreender como é que o mercado de rádio mais poderoso e concorrencial está a organizar-se em termos de programação.

Crisell, Andrew, Understand Radio, Routledge, Londres, 1994, segunda edição