“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

as play lists em portugal

April 20, 2006

Para lá da emoção, nada acontece por acaso na rádio que ouvimos

Que regras ditam a escolha das músicas na rádio? Qual a importância da voz e da estética sonora
de uma estação perante a audiência? Que ingredientes ditam o sucesso? O PÚBLICO foi aos bastidores da rádio falar com quem a faz, para perceber como funcionam as coisas do lado de lá. Por Ana Machado

A cada três semanas há um grupo de pessoas, dentro do público-alvo da Rádio Comercial, a quem uma empresa de estudos de mercado faz testes musicais. É apresentado a esse grupo um conjunto de músicas novas e dependerá da reacção positiva do universo do estudo a entrada de uma música na estudada lista de músicas que se ouvem na estação. Esta é a rádio que se faz hoje. E não há produto de sucesso que não funcione assim, confessam os responsáveis de duas das estações nacionais mais ouvidas do país: a lider de audiências RFM, do grupo Renascença, e a eterna terceira, a Rádio Comercial. Quase nada acontece por acaso na rádio de hoje.
Pedro Ribeiro, director da Rádio Comercial, passou 16 dos seus 35 anos a fazer rádio. Não desliga por um momento, durante a conversa, a atenção da emissão da Comercial emitida no seu gabinete. Foi a Rádio Comercial a pioneira em estudos de mercado para escolher a música que passa, em 1998, conta. “É impossível ser líder de audiência e não fazer investigação musical”, afirma. Mas acredita que não é só isso que faz a “magia” da rádio actual. Há espaço, nessa incontornável realidade dos estudos de mercado, para o instinto, confessa: “Nesta estação, continua a existir o instinto, aquilo que acreditamos que vai ou não funcionar. Se fossemos só pelos estudos, bastava copiar o que os outros passam e esperar pelos mesmos resultados. Isso já foi feito aqui nesta casa, com resultados desastrosos.”
António Mendes é o director de programação da rádio líder de audiências em Portugal há três anos, a RFM. “Não há hoje negócio de sucesso que não use como ferramenta os estudos de mercado. Infelizmente só chegaram à rádio nos anos 90. É uma forma mais produtiva de fazer rádio, não é a mais fácil. Sem eles, fazer hoje rádio seria como navegar sem instrumentos de navegação. O mercado é muito concorrencial. Seria inconcebível fazer rádio de outra maneira”, diz o sociólogo de formação. A rádio para jovens adultos do grupo Renascença (a RFM tem como alvo o público entre os 25 e os 35 anos, tal como a Comercial), que teve sempre o segundo lugar nas audiências, conseguiu passar o Canal 1 da Renascença em 2003, ano em que a líder fazia 25 anos no primeiro lugar. Foi uma prenda amarga. Mas ficou tudo em casa.
Mas António Mendes, que até é professor de metodologia científica, não acredita que exista a chamada “rádio científica”: “A rádio científica faz-me confusão. A ciência é outra coisa”, defende, acrescentando que “hoje tem-se uma rádio melhor, diferente, mais próxima dos públicos, que fala com as pessoas, ao contrário do que possam dizer alguns velhos do Restelo”.
Mas dirigir um canal de música não tem, necessariamente, de significar que se deve seguir à risca os estudos. Pelo menos é isso que pensa Rui Pego, director da RDP, em relação ao canal de música do grupo de serviço público, a Antena 3: “Saber a quem se dirige o nosso produto não é nenhum pecado. Os estudos estratégicos e a monitorização das músicas são hoje algo banal no meio rádio. Mas o problema está na interpretação dos estudos. É confortável funcionar com monitorização permanente. Mas acho que é redutor ficar pelo estudo. Estamos a falar de comunicação, uma actividade com uma forte componente emocional. Focar-me apenas na racionalidade dos números não chega.”
Rui Pego acrescenta ainda, à componente emocional, o dever, de serviço público, que se impõe à Antena 3 na escolha musical: “Para além de passar a música que as pessoas gostam, temos a obrigação de divulgar novas tendências e estilos, sempre com uma preocupação matricial: a difusão da música moderna portuguesa.”
Isso explica, segundo o responsável das rádios do Estado, a diferença entre a Antena 3 e a RFM, apesar de ambos os projectos se dedicarem mais ou menos ao mesmo público-alvo. “A Antena 3 tenta moldar a realidade, a RFM dá aquilo que as pessoas querem. É claro que eu quero mais audiência, mas se isso me colocar em desvantagem, azar. A minha convicção é de que, a prazo, aquilo que praticamos se transformará numa grande vantagem.”
Mas, para além da música, o que faz uma rádio? Todos estão de acordo que as vozes são muito importantes. Mas mais importante do que a envolvência de uma boa voz é a capacidade de comunicação. E, acima de tudo, está a imagem sonora da rádio, ou a estacionalidade, como prefere dizer António Mendes. É aí que reside a personalidade da rádio. “É das coisas mais importantes numa rádio. Deve identificar a estação e chamar à atenção dos ouvintes”, diz, referindo que bastam três notas musicais para identificar a RFM de acordo com o seu jingle mais conhecido, que reflecte o espírito”alegre e descontraído” da estação.
Pedro Ribeiro é da mesma opinião: “Os jingles são a nossa marca”, diz enquanto mostra a diferença entre os jingles cantados e aqueles apenas falados, que a Comercial criou para a sua nova imagem sob a máxima “toca a animar”. “Leva muito tempo a definir o que são os jingles de uma estação, leva semanas”, diz o director da Comercial. E quando é que se define que essa imagem sonora da rádio deve mudar? “Quando não se conseguem bons resultados. Isto partindo do princípio que se quer ter audiência. Nós queremos. A Comercial quer ser a mais ouvida do país. E não há que ter pudor em dizê-lo.”
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A playlist de todos os ódios e amores

Reza a história que a famosa playlist, sem a qual as rádios hoje não vivem, terá sido inventada quando um homem norte-americano verificou, nos anos 40, que, no bar que frequentava, as pessoas escolhiam sempre os mesmos temas da jukebox que ali havia. Inventou, a partir desse observação, o formato top 40, que iniciou a rádio na era da playlist.
Mas o que vem a ser a playlist, sem a qual não se pode viver hoje em rádio, mas com a qual os amantes da rádio preferiam não viver de todo? “A playlist é apenas um meio para gerir a música que se toca. É importante numa rádio que passa muita música. Os programas de autor faziam sentido numa altura em que só existiam rádios generalistas. Hoje não há espaço para rádios generalistas, que passem rock de manhã e clássica à tarde”, afirma António Mendes, director de programas da RFM, estação na qual resta apenas um programa de autor, Oceano Pacífico, da meia-noite às 2h00, com João Chaves, um dos programas mais antigos da rádio portuguesa.
Um programa de autor acontece quando a música dessa hora não é imposta pela lista pré-definida da estação e depende da escolha do seu autor. Na Rádio Comercial, esse momento diferente do dia acontece entre a meia-noite e as 3h00 com António Sérgio e A Hora do Lobo. O resto do dia é comandado por uma estudada lista pré-definida onde imperam as regras: de manhã não passam músicas com mais de cinco minutos. E não podem passar três baladas seguidas, ou três músicas dos anos 80, por exemplo, explica Pedro Ribeiro, o director da Comercial.
Na realidade, a playlist é algo a que hoje nem mesmo as rádios mais abertas aos programas de autor escapam. Na Antena 3, por exemplo, onde os programas de autor acontecem a partir das sete da tarde, Rui Pego explica que seria impossível viver sem a playlist: “Uma playlist é um instrumento de trabalho. É uma forma de organização sistemática da emissão quando não há programas de autor.” E quando é que isso acontece na Antena 3? “De segunda a sexta, entre as 07h00e as 19h00″, diz Rui Pego. A.M.

POL nº 5862 | Sábado, 15 de Abril de 2006