“A rádio que temos” é um blogue de João Paulo Meneses, de apoio ao trabalho escrito do 2º ano do doutoramento em comunicação na Universidade de Vigo. Pretende identificar a rádio portuguesa e, já agora, opô-la, a nível de formatos, à rádio de alguma Europa.

Como se faz uma play list

February 4, 2006

“Every week GWR speaks by telephone to hundreds of people, aged om 20 to 34, about their musical tastes. Each respondent is asked to identify their current musical preferences from a shortlist of musical ‘clusters’, and then asked for their opinions on a list of current songs. The learning from this ongoing research helps in the construction of our group playlists” (informação oficial do grupo GWR [em Maio de 2005 o GWR fundiu-se com a Capital Radio e deram origem ao grupo GCap Media], apud Fleming, 2002: 16/17).

“The playlist determines what will be played, and how often it will be played. (…) In any event the selection of music is not down to personal taste but is a professional judgement that takes into account a variety of factors including the station’s target audience, how appropriate a particular track is to certain times of the day, and often whether or not it has ’scored’ well in audience research” (Fleming, 2002, 54)

O problema das play lists

January 29, 2006

Los oyentes quieren escuchar con frecuencia las canciones que les gustan. Si ponemos las preferidas demasiado poco los oyentes no las oirán con tanta frecuencia como para suponer que las vamos a emitir de nuevo. Esto no anima a una escucha prolongada y frecuente. Por otro lado, si se ponen las canciones con excesiva frecuencia, quizá les parezcan repetitivas y les haga desconectar muy rápidamente, acortándose así los espacios de escucha” (Norberg, 1998: 82)

A rádio que temos é inimiga da diversidade musical (e cultural)?

October 5, 2005

David Hendy, por exemplo, não tem dúvidas de que sim. Se encontra, por exemplo, no canal 1 da BBC uma excepção à rígida formatação e à elevada segmentação que caracterizam a rádio actualmente, a constatação mais evidente é que a rádio, tal como a conhecemos, é demasiado passiva (uma ideia que Hendy foi buscar a Roland Barthes e aos seus textos sobre o grão* (”Image, Music Text”). Os ouvintes acabam, na maior parte dos casos, por ficar reféns de uma cultura média imposta pela comunicação social, também ela muito condicionada por padrões externos (audiências, facturação, receptividade dos anunciantes). No fundo, e generalizando, ouvimos sempre a mesma música. “It is a commonplace of current radio criticism that music radio output is not only sometimes biased towards the more polished and melodic records of the music industry but also is bland and unchallenging as a whole” (Hendy, 172).
Apesar da segmentação de nichos e da consequente formatação por múltiplos géneros aparentemente indicarem multiplicidade de opções, isso não se verifica na realidade. Assiste-se à imposição de um gosto-médio, que as tabelas de vendas orientam, e que globalmente coincidirá com as músicas mais tocadas (“airplay”).
A disciplina é conseguida à custa da imposição das “play lists” (“A playlist allows station managers to reduce the element of risk entailed in leaving individual DJs and producers to select records, thus ensuring a proper consistency of output”, Hendy 173), da uniformização da animação e, até, de programas de software, como o “Selector” que organizam ou rejeitam determinadas categorias musicais, mais ou menos “emotivas”.
A rádio musical não tem, assim, capacidade ou espaço para favorecer a inovação musical, demasiado refém que está da indústria discográfica. Hendy não tem dúvidas: “Our understanding of radio’s ability - or, as more commonly stated, its inability - to encourage musical innovation, is based largely on the disjunction between the needs of radio and the needs of the music industry. Take the record sales charts. Each week, on average, between one- and two-hundred singles are released in the UK. To reach number one, a single would currently have to sell on average some 125,000 copies in a week. Exposure on radio is a crucial prerequisite of sales success on this scale” (Hendy 225)
Transformando-se num agente de homogeneização cultural, assiste-te à diminuição de estações de verdadeiro serviço público (mesmo que seja esse o seu estatuto político ou administrativo, como acontece com o canal 1 da portuguesa RDP) ou ao fim de experiências não comerciais (ver capítulo 2.6 Rádios sem formato). É o triunfo da globalização dos formatos, sobretudo musicais.
Hendy cita um caso paradigmático: “New York’s WNEW-FM, often described as America’s ‘first free-form progressive rock station’ - and a mirror for the city’s cultural, musical and sexual vitality - captured only 1.4 per cent of the city’s available audience in 1999, a situation which helped propel its owners into abandoning thirty-two years of history and reformatting it as a laddish all-talk station” (236).
Em Portugal dois exemplos são conhecidos: o fim das rádios XFM e Voxx (ambas com emissão simultânea em Lisboa e Porto), por falta de viabilidade financeira e cujas frequências foram alienadas para estações… comerciais - desenvolvimento em 2.6.

As dificuldades do programador

October 1, 2005

“The radio gatekeeper may appear to mediate between (record) manufacturer and consumer, in the same way that record reviewers in newspapers do, but his responsibilities ultimately lie elsewhere. Radio gatekeepers have a responsibility to the public only in the vaguest sense: their primary concern is to serve the particular publics that the stations’ managers or owners have delineated. (Barnard, S. 1989: On the Radio: Music Radio in Britain. Milton Keynes: Open University Press. Pág. 114 apud HENDY, pág. 99)

Este trabalho de “gatekeeper” que o programador da play list tem de desempenhar não se limita a escolher as músicas pelo género ou pelos autores, mas a passar o crivo por cada música, individualmente. “The programmer of a ‘Soft Adult Contemporary’ formatted station, for example will automatically exclude from its playlist any record with a ‘rougher’ guitar-led sound, and will look for tracks with a softer, more smoothly produced, melodic feel” (Hendy, 99).

Depois de elaborada a playlist, é preciso cumpri-la rigorosamente. Para o ajudar a cumprir a sua função de “gatekeeper”, recorre a programas informáticos que não só seleccionam s músicas como definem alinhamentos e relacionamentos (uma por casar com a outra) e impõem regras que evitam certas repetições. Um dos programas informáticos mais usados é o “Selector”.

Não admira que a função de programador da playlist encerre, além da responsabilidade, alguns ódios – por parte dos animadores. Por isso, esse programador raramente é um autor de programas de rádio, mantendo-se equidistante dos vários animadores e da própria antena